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MARZAGÃO
80 ANOS
Augusto José Marzagão faz 80
anos neste 12 de dezembro de 2009.
Foram seus pais Guilherme Marzagão
e Iracema Lambert Marzagão.
Quando a família se transferiu
para São Paulo, Augusto Marzagão
tinha sete anos. Aos doze começou
a trabalhar como entregador de
telegramas da Western, coisa que
fazia com grande orgulho pois
havia uma bicicleta à sua disposição.
Vendeu jornais e doces (Torrone),
esteve num Seminário, trabalhou
como repórter político do jornal
“ O Tempo” e, em 1960,
satisfazendo um velho sonho,
arrumou as malas e se mandou para
a Europa, trabalhando para o
instituto Brasileiro do Café –
IBC.
Convivendo com gente importante,
grandes empresários e artistas,
Marzagão, distante da Pátria,
começou a pensar em fazer alguma
coisa diferente para promover o
Brasil.
De volta, em dezembro de 1965, foi
trabalhar na Secretaria de Turismo
do Estado da Guanabara, onde
conheceu o dr. Carlos de Laet que,
atentamente ouviu seus planos para
a realização, no Rio de Janeiro,
de um Festival de Música Popular.
Empolgado com a idéia, o dr.
Carlos de Laet levou Marzagão à
presença do governador Negrão de
Lima que não teve dúvida em
aprová-la. Nasceu, assim, o FIC
– Festival Internacional da Canção.
Como Diretor Geral do Festival,
Augusto Marzagão viajou dezenas
de vezes à Europa e países das
Américas, convidando cantores,
compositores, maestros,
jornalistas e personalidades
outras que, presentes ao FIC
tornaram-no famoso em todo mundo.
No final da década de 60, jornal
da Capital publicou matéria sob o
título “Pergunta incômoda”,
que transcrevemos para que todos
fiquem sabendo como foi que
Barretos tomou conhecimento de que
Marzagão havia nascido aqui:
“Dois colaboradores de Jânio
Quadros, Augusto Marzagão e José
de Castro conversavam sobre o caráter
dos políticos. Ambos ajudaram Jânio
a se eleger governador.
José de Castro, então deputado
estadual pelo PTB mineiro, falava
das qualidades dos políticos de
Minas. Augusto Marzagão conhecia
o discurso. E ficou quieto.
Castro mencionou a habilidade e a
vocação conciliadora. Coroou sua
fala com a manjada máxima “o
mineiro trabalha em silêncio”.
Marzagão continuou mudo.
José de Castro estranhou, achando
que ofendera o ouvinte: - Augusto,
onde você nasceu?
Augusto Marzagão fez cara de
poucos amigos e disparou: - Nunca
pergunte isso a um brasileiro!
Nunca!
- Mas por quê? questionou,
espantado, José de Castro.
-Ora, se o coitado não nasceu em
Barretos, por que ofendê-lo? –
responde o barretense Augusto
Marzagão”.
Conheço Augusto José Marzagão há
perto de quarenta anos.
Foi assim:
Trazido a Brretos por seu amigo
Sebatião Monteiro de Barros para
ver a Festa do Peão de Boiadeiro,
este hospedou-o na casa dos sogros
– Joaquim de Oliveira
Pereira/Francisca – e regressou
a São Paulo, incumbindo o irmão
João Monteiro de Barros Filho de
“ciceronear” o visitante.
Monteiro Filho cumpria a
“tarefa” às vezes pedindo
ajuda aos amigos. Num encontro
comigo pediu-me que
“acertasse” uma visita de
Marzagão a Bezerra de Menezes e
que o levasse para o encontro.
Tudo combinado, fomos à noite à
casa de Bezerrinha. Era 24 de
agosto de 1970. A visita
transformou-se numa festa, com
Bezerrinha ao piano e Lygia
mostrando o repertório musical do
marido. Acho que umas duas dezenas
de canções. Ou mais. La pelas
tantas, a casa é invadida pelos
filhos do casal, namorados e
amigos, que voltavam de algum
evento relacionado com a Festa do
Peão. E mais música tomou conta
do ambiente que ficou ainda mais
festivo. Em meio a toda essa
movimentação, Marzagão fala da
sua alegria pela carinhosa recepção,
culminando com estas palavras:
“Quero informá-los que Bezerra
de Menezes é o meu primeiro
convidado para integrar o Júri
Nacional do Festival Internacional
da Canção. Aplausos....choro....
emoção. Telefonei ao Monteiro
que, com Joel Waldo estava
“fechando” o jornal e os dois,
minutos após, com o repórter
fotográfico Ismael (O Diário)
chegavam para documentar o
acontecimento. Tenho as fotos
dessa noite e o cartão de visitas
que me foi dado por Marzagão,
onde ele anotou o endereço e o número
de um dos telefones da TV Globo,
para onde eu deveria telefonar-lhe
alguns dias depois, para saber a
data exata em que Bezerrinha
deveria estar no Rio de Janeiro
para, no Maracanãzinho, ao lado
de talentos do seu porte julgar o
que de mais importante se fazia no
Brasil em termos de Música
Popular. Tudo correu
maravilhosamente bem e nós, daqui,
vimos, pela TV Globo, o momento em
que as câmeras focalizaram o
nosso compositor. Aliás, sempre
que, principalmente o “Globo Repórter”,
relembra a trajetória das várias
edições do Festival
Internacional da Canção – o
FIC – Bezerra aparece, embora
numa fração de segundo. Dessa época
para cá Marzagão passou a vir
mais a Barretos.
O
“BRUXO” DA COMUNICAÇÃO
Paulista de Batretos, sua
atribulada trajetória pessoal se
inicia com a súbita incursão na
vida pública, aos 22 anos, já
com a destreza e a maturidade de
um veterano, nas funções de
colaborador de Jânio Quadros,
quando pela primeira vez prefeito
de São Paulo.
Depois dessa estréia respeitável,
Augusto Marzagão mergulhou
durante alguns anos no país do
silêncio, em cuja calma veio a
arquitetar um empreendimento
fadado a marcar presença numa difícil
etapa da vida cultural do Brasil:
os Festivais Internacionais da Canção.
Os FIC’s mudaram e enriqueceram,
não só a música popular
brasileira, mas a própria vida
inteligente do País.
O vazio cultural criado durante os
piores anos da escuridão política
foi repentinamente iluminado pela
MPB, um dos poucos espaços que
restaram e em que tanto a livre
criação artística quanto a
manifestação de idéias políticas
podiam se filtrar, de forma sutil,
escapando às lupas da censura.
Ao mesmo tempo, essa contingência
histórica fez que a MPB
ingressasse pela porta dos FIC’s
numa fase de sofisticação
criativa cujos efeitos se fazem
sentir até hoje. Caetano Veloso,
Chico Buarque, Milton Nascimento,
Gal Costa, Guarabyra, Rita Lee,
Aldyr Blanc, Ivan Lins, Zé Rodrix,
Beth Carvalho, Egberto Gismonti,
Dori Caymmi, Geraldo Vandré,
Paulinho Tapajós, Cartos Coqueijo
Costa, Paulo Sérgio Valle,
Edmundo Souto, Taiguara, Joyce,
Antonio Adolfo, Danilo Caymmi, Tibério
Gaspar, Eduardo Souto, Eduardo
Conde... eis alguns nomes
revelados e outros projetados
nacionalmente nos palcos dos
FIC’s.
Ter aberto essa clareira
privilegiada ao talendo, em situação
particularmente adversa,
constituiu por si só, uma realização
pessoal de projeção suficiente
para abrir a Augusão Marzagão
uma página na nossa história
cultural.
Nos anos 70, nosso personagem toma
o caminho do auto-exílio, como
tantos outros valores das artes,
da política e da ciência,
tangidos pelo obscurantismo.
Augusto Marzagão ingressou como
simples auxiliar de vendas no
Grupo de Comunicação Televisa,
do México. Cumpriu uma carreira
brilhante, culminando na Vice-Presidência
de operações Internacionais da
emissora. Foi uma época de muitas
e variadas andanças pelo mundo a
serviço da Televisa, sendo difícil
citar um lugar deste planeta que
Marzagão não conheça.
De volta ao Brasil em 1988,
consolida sua fama de “Bruxo da
Comunicação” a serviço de Jânio
Quadros e, depois, como secretário
particular do Presidente José
Sarney. Desde o início do Governo
Collor, os grandes jornais
brasileiros começaram a publicar
as colaborações de Augusto
Marzagão. Ele foi dos primeiros
articulistas desvincu-lados de
qualquer orientação partidária
a apontar os descaminhos daquele
governo e a preconizar o abismo em
que se precipitaria.
Responsável pela Comunicação
Institucional do Governo Itamar
Franco, desenvolveu e implementou
uma estratégia de comunicação
centrada na auto-estima do povo
brasileiro, único caminho que via
para a restauração de valores
nacionais, como o amor e o
respeito à Pátria (sem ufanismos
ingênuos nem xenofobias), a
confiança na classe política e
nas instituições públicas, crença
no futuro do País, a honradez do
Governo e dos seus dirigentes, a
solidariedade entre os brasileiros
e a harmonia entre a nação e o
Estado.
Os testemunhos que recolheu do
cidadão e do Presidente Itamar
Franco e, particulamente, dos bem
sucedidos esforços no programa
de estabilização da economia
retemperaram no comunica-dor o
otimismo que nunca deixou de
guardar no peito.
Profissional de consistente estofo
ético, Marzagão defende um
“jornalismo de palavra”. Na
defesa dessa bandeira, esconjura
todo tipo de corporativismo.
Critica a imprensa brasileira nos
seus desvios sensacionalistas, nos
seus julgamentos equivocados e
precipitados sobre a conduta de
homens públicos, na pretensão de
constituir um “oligopólio da
verdade’_’ adverte sobre os
excessos da televisão, sobretudo
aqueles que “arranham a simetria
moral dos valores da família, do
decoro coletivo e da cultura
brasileira. Denuncia os abusos de
fortes segmentos dos meios de
comunicação, que ele quer
comprometidos não apenas com a
notícia mas também com os
ditames da boa convivência democrática
e a melhor formação possível da
cidadania. Da mídia ele espera,
igualmente, que seja arma
influente no combate às injustiças
sociais, à marginalização e à
miséria, que ainda tanto
mortificam este “Irmão Brasil”.
CARIOQUICE
A carioquice está nas curvas
douradas das garotas de Ipanema,
na malemolência dos últimos
malandros, nos falsos cabelos de
fogo da velha senhora, no insuperável
canto nasal de Araci de Almeida;
na sainha tomara-que-caia que mal
encobre o essencial, como o tênue
véu da fantasia mal escondia a
realidade.
Carioquice é sanduiche de
mortadela na bandeja dos canapés
de caviar e todos os sabores que
democraticarnente se misturam nos
balcões de comida a quilo. Taí,
acabo de descobrir a pólvora:
carioquice é comida a quilo! Uma
espécie de salada de frutas
salgada, geralmente gostosa e fácil
de se engolir no curto intervalo
entre os dois expedientes do dia.
O pior, minto, o melhor é que
carioquice pega. Venha alguém de
onde vier - da Europa, dos States,
da China, da Cochinchina, ou daqui
mesmo, dos vizinhos de norte a sul,
até mesmo Barretos, que é de
onde vim, e em pouco tempo é
inoculado pelo vírus da
carioquice. Basta uns poucos
mergulhos no mar de Copacabana ou
de Ipanema, ou umas andanças
“pelaí” (como diria o carioquíssimo
Stanislaw Ponte Preta, sorvendo
uma ca-chacinha esperta nos balcões
ensebados dos esplêndidos pés-sujos
que a cidade ostenta. Basta a visão
luminosa, resplandecente,
encantadora e encantatória da
paisagem à sua volta. Vira
carioca de nascença, detentor da
mais autêntica e deslavada
carioquice.
Evoé, Rio! - exclamaria o poeta
diante de tanto estapafúrdio.
Repitamos todos, alto e bom som,
rebrilhando de carioquice: Evoé,
Rio!
MINHA
MÃE IRACEMA
Tive uma mestra informal em matéria
de proteção ao meio ambiente,
assunto sobre o qual publiquei um
bom número de artigos em grandes
jornais do País. Foi minha Mãe.
Ela chamou minha atenção, quando
eu ainda era menino, para os
problemas causados pela
irresponsabilidade criminosa dos
que destroem as florestas e
provocam a poluição e a morte
dos rios.
Eu estava no quintal da nossa casa
tirando a casca de uma laranjeira,
quando a ouvi:
- Não faça isso, meu filho, a
laranjeira tem vida como nós.
- Como tem vida? – rebati.
Ela:
- Tudo o que está na terra tem
vida. A água também é vida; sem
ela nada consegue existir. E não
quero que você seja um assassino
da vida da natureza.
Graças a isso, ao que D. Iracema
incutiu em mim, a laranjeira
descascada na minha infância não
foi sacrificada em vão....
ESTÓRIA
INVENTADA POR MARZAGÃO
Um barretense que morava em Moscou
foi ao açougue comprar “filet
mignon” e, como não havia, foi
lembrando outras peças do boi:
contra-filé, alcatra, coxão
mole, coxão duro, patinho,
lagarto, e o dono do açougue
sempre dizendo que não tinha.
Desanimado, agradeceu e, ao sair,
ouviu o açougueiro comentar com
seu ajudante: “Esse senhor tem a
memória muito boa”.
Quando
eu morrer, plantem meu coração
nos jardins de Burle Marx no
Aterro do Flamengo. Minha esperança
– e a eternidade almejada - é
que dele brote um desses arbustos
que enfeitam, com máxima
carioquice, a primavera do Rio
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